“Acho que é fundamental a modernização do SUS. Nós temos que acreditar em gestão hoje”, disse Ronaldo Caiado
Redação Scriptum
Foco no diagnóstico precoce, filas para atendimento com prioridade para os casos mais graves, uso intenso de tecnologia e investimento para aprimorar a gestão dos recursos alocados ao sistema público de saúde. Esses foram alguns dos tópicos do plano de governo para o setor apresentado pelo candidato do PSD à Presidência da República, Ronaldo Caiado, em entrevista coletiva realizada em São Paulo na manhã de terça-feira (18). Com a presença do presidente nacional do PSD e candidato a vice-presidente na chapa, Gilberto Kassab, o ex-governador de Goiás falou durante duas horas sobre o seu programa.
Médico de formação, Caiado destacou seu compromisso com a saúde. “Minha formação é para cuidar e salvar vidas. Durante a pandemia do Covid fui o primeiro governador a estabelecer o isolamento social como forma de evitar o contágio, enquanto se desenvolvia a vacina”, lembrou.
O candidato do PSD elogiou o Sistema Único de Saúde (SUS), que definiu como uma das maiores conquistas da Constituição de 1988. Segundo ele, o principal desafio agora é adaptar a rede pública às mudanças demográficas do País.
Segundo Caiado, o investimento de recursos não é suficiente sem profissionais preparados para administrar as estruturas do sistema. “Acho que é fundamental a modernização do SUS. Nós temos que acreditar em gestão hoje”, afirmou. Ele criticou a falta de profissionais qualificados para administrar estruturas de saúde e citou o conhecimento sobre a legislação do SUS e as demandas de cada município como requisitos para os gestores.
O candidato também criticou indicações políticas para cargos de gestão e defendeu a realização de avaliações de conhecimento antes da nomeação de profissionais. “É muito comum a pessoa querer dizer: ‘Eu vou indicar esta pessoa aqui para ser o meu coordenador na área da educação ou este aqui para ser o secretário de Saúde no município’. Eu falava sempre ao prefeito: manda ele fazer uma prova de gestão para saber se ele sabe”, disse.
Atenção básica
Ele explicou que o plano apresentado foi elaborado sob coordenação do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, que integrou o governo Jair Bolsonaro e foi demitido em 2020 por divergências com o então presidente sobre o enfrentamento à pandemia. Entre as ações previstas estão o fortalecimento da atenção básica, implantação de um prontuário eletrônico nacional, uso de inteligência artificial na gestão e no diagnóstico de doenças e políticas voltadas ao envelhecimento da população.
Durante a apresentação, o ex-governador de Goiás afirmou que hoje o sistema de saúde atua de forma predominantemente “reativa” e defendeu uma mudança no foco do tratamento para a prevenção e o diagnóstico precoce. “Hoje estamos brigando com a doença, ou seja, estamos recebendo pacientes com a doença em fase avançada”, disse.
“Estamos trabalhando no sentido de avançar no diagnóstico precoce, em vez de correr atrás de tratar a doença disseminada, com pouco prognóstico e altíssimo custo para o governo e para a verba da saúde”, afirmou o candidato.
Um dos principais pilares do plano é baseado na regionalização da assistência para reduzir as chamadas mortes evitáveis. Segundo ele, em muitas regiões do país, pacientes morrem não pela gravidade inicial da doença, mas pela dificuldade de acesso a hospitais de média e alta complexidade.
Envelhecimento
O candidato ressaltou que o Brasil tem atualmente cerca de 32 milhões de pessoas com mais de 60 anos e que a tendência é de aumento da população idosa nas próximas décadas. Por isso, defendeu uma atualização das políticas públicas para atender doenças associadas ao envelhecimento, como cardiopatias, AVCs, transtornos mentais e doenças neurodegenerativas.
Caiado defendeu a ampliação da rede de saúde mental e a criação de políticas específicas para idosos diante do aumento da solidão e da demanda por instituições de acolhimento.
Segundo ele, a necessidade de estruturas de cuidado geriátrico já supera, em algumas localidades, a procura por espaços destinados à primeira infância. “Hoje nós estamos tendo mais pedidos de atenção ao idoso do que de creche. Impressionante como as famílias estão deixando os pais”, afirmou.
O ex-governador de Goiás disse que a mudança revela uma transformação na dinâmica dos lares brasileiros e exige uma resposta do poder público. “Nós temos que ter uma atenção com os idosos. É uma realidade hoje”, declarou.
Caiado também associou o envelhecimento da população ao aumento de casos de solidão e depressão entre os idosos. Na avaliação do goiano, muitos acabam sem acompanhamento familiar e passam a depender de políticas públicas para garantir cuidados básicos. “É algo que você não imagina, o quanto as pessoas hoje estão ficando sozinhas, largadas, sem a menor atenção dos familiares”, disse.
O candidato criticou ainda a transferência da responsabilidade pelo cuidado dos idosos exclusivamente para o Estado, especialmente entre famílias de classe média. Segundo ele, a mudança de comportamento precisa ser considerada na formulação de políticas públicas. “Nós temos que estar atentos para essa mudança de comportamento a qual nós estamos assistindo no Brasil. O número de pais e mães que estão hoje necessitando de ajuda do governo é uma política que merece nossa atenção mais do que nunca”, enfatizou.
Filas mais rápidas
Uma das principais propostas apresentadas por Caiado é a adoção de critérios clínicos para definir a prioridade de atendimento nas filas do SUS. “Hoje, a fila não olha para quem está pior”, disse ele.
Segundo o candidato, o sistema não deve considerar apenas a ordem de entrada dos pacientes, mas também a gravidade dos casos. A proposta prevê o uso de prontuários eletrônicos e sistemas integrados para identificar pessoas que precisam de atendimento mais urgente.
Ele defendeu ainda que pacientes oncológicos tenham uma fila separada e que casos de infarto e AVC contem com unidades especializadas e protocolos específicos de atendimento.
Outra proposta destacada por Caiado é a digitalização do sistema. Ele citou a Índia como exemplo de integração digital na saúde e defendeu a criação de um prontuário eletrônico nacional, acessível ao paciente pelo celular e compartilhado por toda a rede pública.
Segundo disse, o objetivo é evitar perda de informações, repetição de exames e falhas de comunicação entre diferentes unidades de atendimento, conectando “de cada unidade básica de saúde ao maior hospital”. O plano também prevê o uso de inteligência artificial para análise de exames, gestão das filas, avaliação de indicadores e monitoramento de resultados.
Vacinas
O candidato criticou a disseminação de informações falsas sobre vacinas e declarou que pretende atuar diretamente para recuperar os índices de vacinação registrados historicamente pelo Brasil. “A população não pode ter essa dúvida. Tem que acreditar em quem faz ciência, faz pesquisa, quem cuida de vidas e não pessoas da tese do achismo”, declarou.
O plano também prevê ações voltadas à saúde da mulher, com foco no pré-natal, na prevenção do câncer de mama e do câncer de colo do útero.
O candidato defendeu ainda a ampliação do uso de inteligência artificial para acelerar diagnósticos e reduzir tarefas burocráticas na rede pública de saúde.
Além disso, propôs fortalecer a produção nacional de medicamentos, insumos farmacêuticos e tecnologias médicas para reduzir a dependência do exterior. Para ele, a pandemia demonstrou a dependência do Brasil em relação a fornecedores de outros países e a necessidade de fortalecer o complexo industrial da saúde.
Caiado também dedicou uma parte da apresentação às pessoas com autismo e às doenças raras, áreas que, segundo ele, precisam ganhar mais espaço nas políticas públicas de saúde. “O cuidado com o autismo tem que estar no plano de saúde”, defendeu. Entre as propostas apresentadas está a criação de um centro especializado em doenças raras em São Paulo, defendido pela senadora do PSD Mara Gabrilli. Caiado afirmou que o objetivo é transformar o Brasil em referência em pesquisa, diagnóstico e tratamento dessas condições, aproximando o país dos avanços mais recentes da medicina.



