Papa divulga encíclica em que pede regulamentação da IA

Papa Leão no Vaticano
 27/8/2025   Reuters/Guglielmo Mangiapane/Proibida reprodução

Em seu primeiro documento importante, divulgado nesta segunda-feira (25), o papa Leão XIV pediu aos governos que desacelerem e regulem o desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial (IA). Ele alerta que eles espalham desinformação, priorizam conflitos e arriscam levar o mundo a um caminho de guerra sem fim.

O primeiro papa norte-americano manifestou sua preocupação, em evento no Vaticano que lançou o texto de que alguns sistemas de armas autônomas avançaram “praticamente além de qualquer alcance humano para governá-los”. O evento contou com a presença de Chris Olah, cofundador da Anthropic, uma das principais empresas de IA do mundo.

Leão XIV, que adotou um tom mais enérgico nos últimos meses e respondeu ao presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, com críticas à guerra no Irã, fez uma série de apelos aos líderes mundiais no longo documento, conhecido como encíclica.

O papa ainda pediu que a propriedade dos dados de IA não seja deixada apenas em mãos privadas, que os formuladores de políticas protejam os direitos dos trabalhadores e mantenham as crianças a salvo da tecnologia, e defendeu o esfriamento da concorrência entre as empresas de IA.

“O que é necessário é um envolvimento político mais ativo que seja capaz de desacelerar as coisas quando tudo está se acelerando”, disse Leão no texto, intitulado “Magnifica Humanitas”.

“O que é necessário é um envolvimento político mais ativo que seja capaz de desacelerar as coisas quando tudo está se acelerando”, disse Leão no texto, intitulado “Magnifica Humanitas”.

O papa pediu “estruturas legais robustas, supervisão independente, usuários informados e um sistema político que não abdique de sua responsabilidade”.

As encíclicas são uma das formas mais elevadas de ensino de um pontífice para 1,4 bilhão de seguidores da Igreja.

O texto altamente esperado desta segunda-feira, com quase 43 mil palavras, está sendo preparado desde a eleição de Leão como papa, há pouco mais de um ano.

O documento, que abordou a IA como seu tema principal, também criticou o número de guerras que assolam o mundo, lamentou o enfraquecimento das organizações multilaterais e advertiu que os lucros da indústria de armas são a força motriz por trás dos conflitos.

“Os últimos 60 anos foram marcados por conflitos de brutalidade surpreendente, muitas vezes afetando populações civis em grande escala”, afirmou Leão no texto em inglês.

“Os últimos 60 anos foram marcados por conflitos de brutalidade surpreendente, muitas vezes afetando populações civis em grande escala”, afirmou Leão no texto em inglês.

“A humanidade está escorregando para uma cultura violenta de poder, onde a paz não aparece mais como uma responsabilidade a ser assumida, mas como um frágil intervalo entre os conflitos”, disse.

No evento do Vaticano, nesta segunda-feira, o cofundador da Anthropic, Chris Olah, agradeceu a Leão por abordar os problemas levantados pela nova tecnologia disruptiva. Ele disse que empresas como a sua enfrentam fortes pressões comerciais e precisam de escrutínio externo.

“Todos os laboratórios de IA de fronteira, inclusive a Anthropic, operam dentro de um conjunto de incentivos e restrições que, às vezes, podem entrar em conflito com a ação correta”, declarou Olah. A Anthropic é a empresa que produz as ferramentas de IA da Claude.

Em sua encíclica, Leão também fez uma das declarações mais claras já feitas por um papa repudiando a teoria da guerra justa, uma doutrina que a Igreja tem usado desde pelo menos o século 5 para avaliar conflitos globais.

A doutrina, que, em geral, diz que as guerras só devem ser travadas para se defender contra agressões, também foi invocada por autoridades do governo Trump, incluindo o vice-presidente JD Vance, um católico, para defender a guerra do Irã.

“A teoria da ‘guerra justa’, que tem sido usada com muita frequência para justificar qualquer tipo de guerra, agora está ultrapassada”, escreveu Leão.

“A teoria da ‘guerra justa’, que tem sido usada com muita frequência para justificar qualquer tipo de guerra, agora está ultrapassada”, escreveu Leão.

“O uso da força, da violência e das armas reflete uma pobreza relacional que sempre tem consequências desastrosas para as populações civis.”

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Agência Brasil

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