Congresso da Bolívia facilita uso do estado de exceção pelo presidente

Demonstrators from mining unions face police forces as they protest against President Rodrigo Paz's government amid an ongoing economic and fuel crisis, in La Paz, Bolivia, May 14, 2026. REUTERS/Claudia Morales

A Câmara dos Deputados da Bolívia aprovou, nessa terça-feira (26), em reunião online, a revogação da Lei 1341, que limitava os poderes do presidente da República para decretar estado de exceção, que é quando o governo assume poderes excepcionais e suspende, parcialmente, as regras do Estado de direito.

Aprovada no Senado da Bolívia no domingo (24), a revogação da lei que criava limites ao uso do estado de exceção ainda precisa ser sancionada pelo presidente Rodrigo Paz.

Com a mudança, Paz terá menos limites para decretar estado de exceção e tentar, por meio do uso da força, abrir os mais de 50 bloqueios registrados nessa terça-feira, em cinco dos nove departamentos do país, segundo informa a mídia local. 

O governo Paz enfrenta mais de três semanas de protestos que pedem sua renúncia. A mobilização reúne camponeses, indígenas, professores, mineiros, entre outras categorias. Os bloqueios têm causado desabastecimento em várias regiões do país andino, levando à escassez de combustíveis, alimentos e medicamentos nas cidades afetadas.

O professor de ciência política da Universidade Federal do Ceará (UFC) Clayton Cunha Filho explicou à Agência Brasil que a revogação da lei amplia a margem de manobra do governo Paz para decretar estado de exceção.

“Essa lei de 2020 dava mais poderes ao Legislativo para supervisionar e, eventualmente, até não aprovar e suspender o decreto do presidente de estado de exceção”, explicou o especialista em política boliviana.

“Essa lei de 2020 dava mais poderes ao Legislativo para supervisionar e, eventualmente, até não aprovar e suspender o decreto do presidente de estado de exceção”, explicou o especialista em política boliviana.

Além disso, Rodrigo Paz vem sendo pressionado por setores de direitas e empresariais para que use a força para desobstruir os bloqueios.

“As elites de Santa Cruz, no leste do país, que sempre foi o bastião da direita, estão pressionando muito o governo, alegando que ele, supostamente, está se contendo demais na repressão. Esses grupos, inclusive, ameaçam eles mesmos formar grupos de cidadãos para desobstruírem as estradas se o governo não agir”, completou.

O autor do projeto para revogação da Lei do Estado de Exceção, deputado Roberto Júlio Castro Salazar, argumenta que a legislação desvirtuou a aplicação do estado de exceção enquanto instrumento para preservar a segurança, ordem e tranquilidade públicas.

“[O objetivo dessa lei foi] impedir o governo constitucional de Jeanine Áñez de usar legal e legitimamente a força constitucional e pública do Estado, [para] desestabilizá-lo e derrubá-lo, por meio da violência criminosa concebida, promovida, financiada e organizada pelo regime fraudulento do ex-presidente Evo Morales”, diz a justificativa para revogar a legislação.   

A Lei 1341 foi aprovada pelo Parlamento boliviano quando o MAS, partido de Evo, tinha maioria, em 2020. A decisão ocorreu após comandantes militares exigirem a renúncia de Evo Morales, em novembro de 2019, em meio a protestos com acusações de fraudes contra o resultado eleitoral que deu vitória ao MAS de Evo.

Diante da pressão dos militares, Evo Morales deixou o país e se exilou no México. No Lugar, assumiu a senadora da oposição Jeanine Áñez.

O professor Clayton Cunha Filho destacou que Áñez, aproveitando a pandemia, atrasou as eleições, gerando protestos que poderiam resultar em repressão do Estado.

“Ela, de fato, só convocou essas eleições depois de muita pressão e protestos e de um cerco até parecido com o de agora, mas de menor intensidade, porque esse de agora está já bem mais radicalizado”, comentou o especialista.

“Ela, de fato, só convocou essas eleições depois de muita pressão e protestos e de um cerco até parecido com o de agora, mas de menor intensidade, porque esse de agora está já bem mais radicalizado”, comentou o especialista.

Após vitória de Luis Arce, do MAS, Jeanine Añez foi presa acusada de golpe de Estado, em março de 2021. Com a vitória de Rodrigo Paz, no ano passado, a ex-senadora deixou a prisão após mais de quatro anos presa.

O deputado Roberto Salazar argumentou ainda que a Constituição da Bolívia é suficiente para disciplinar o uso do Estado de Exceção, não sendo necessária uma lei infraconstitucional.

Em seu artigo 137, a Constituição do país andino autoriza o uso do Estado de exceção em caso de “ameaça à segurança nacional, ameaça externa, agitação interna ou desastre natural”.   

O mesmo artigo acrescenta que a “declaração de estado de emergência não poderá, em hipótese alguma, suspender as garantias de direitos, direitos fundamentais, o direito ao devido processo legal, o direito à informação ou os direitos das pessoas privadas de liberdade”.

Ainda segundo a Constituição, o Estado de Exceção decretado pelo presidente precisa ser aprovado pelo Parlamento em até 72 horas.

O país andino enfrenta uma série de protestos e bloqueio de estradas que se transformou, ao longo das últimas semanas, em uma revolta popular.

Decisões do novo presidente boliviano, que assumiu o poder há apenas seis meses após quase 20 anos de hegemonia da esquerda, vinha provocando manifestações no país desde o início do mandato, em dezembro de 2025, com um decreto que retirava o subsídio à gasolina.

Os protestos aumentaram depois de camponeses e indígenas acusarem o governo de promulgar leis fundiárias com o objetivo de prejudicar pequenos agricultores em favor de grandes empresários do agronegócio.

O governo alega que a lei buscava fortalecer a agricultura do país que passa por grave crise econômica. Devido à pressão popular, a lei foi revogada. Mesmo assim, os protestos cresceram.

Agência Brasil

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