PSD Mulher de Minas quer ser ‘frente de formação’

Juliana Rios defendeu que a pauta de inserção das mulheres esteja presente de forma transversal na atuação política do partido, dentro e fora do período eleitoral.

Edição Scriptum com PSD Mulher

O PSD Mulher em Minas Gerais tem nova coordenação. A gestora pública Juliana Rios, que assumiu a liderança do movimento de mulheres no Estado, destaca a importância de o partido contar com uma estrutura permanente de debate, formação e preparação de mulheres para a atuação política — e não apenas iniciativas concentradas nos períodos eleitorais.

Na quinta-feira (6 de agosto), Juliana se reuniu, em São Paulo, com a coordenadora nacional do PSD Mulher, Alda Marco Antonio. No encontro, elas discutiram aspectos relacionados ao movimento de mulheres do PSD, ações do movimento no estado e os próximos passos da organização em Minas Gerais.

“Contamos com uma liderança qualificada e que atua em Minas Gerais para dar vazão a uma luta que é de todas nós do PSD: aumentar a presença feminina em todo o processo político, buscar meios de ampliar essa participação e discutir formas de superar a desigualdade e a violência de gênero, que é um problema muito agudo em todo o Brasil”, afirmou Alda. “E, neste ano, com o ciclo eleitoral que teremos, tudo se torna ainda mais importante. Vamos batalhar pela eleição de mulheres”, completou.

Alda e Juliana também defenderam que a pauta de inserção das mulheres esteja presente de forma transversal na atuação política do partido, dentro e fora do período eleitoral. As duas ressaltaram ainda o papel do presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, e do presidente estadual da legenda em Minas Gerais, Cássio Soares, na construção partidária.

Natural de Betim, Juliana Rios é gestora pública e graduada em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Entre outras experiências na articulação política e no desenvolvimento de políticas públicas, atuou na Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais, na Assembleia Legislativa de Minas Gerais e na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

A nova coordenadora estadual do PSD Mulher-MG fez uma análise do cenário político no estado e falou sobre os desafios que pretende enfrentar à frente do movimento.

Em linhas gerais, qual é seu diagnóstico sobre a participação das mulheres na política em Minas Gerais atualmente?

O retrato de Minas hoje é o de um paradoxo entre peso eleitoral e poder de decisão. Somos 52,48% do eleitorado mineiro em 2026, maioria que se mantém há vários anos, mas essa força ainda não se traduz em representação proporcional. Hoje são nove mulheres entre os 53 deputados federais de Minas, nenhuma senadora titular e 17 deputadas entre as 77 cadeiras da Assembleia Legislativa.

Esse descompasso reflete barreiras concretas de acesso a financiamento e à estrutura partidária, que a legislação de cotas, sozinha, não resolve. A cota garante que um número seja cumprido, mas não garante que a mulher tenha uma campanha efetiva, com recursos, estrutura e apoio político.

Por isso, entendo que o diagnóstico não pode parar na constatação do problema. É preciso construir deliberadamente uma estrutura partidária que forme, prepare e sustente candidaturas femininas competitivas, em vez de esperar que uma exigência legal resolva sozinha a questão da representação.

Que iniciativas pretende adotar à frente do movimento de mulheres do partido no Estado?

O PSD de Minas Gerais já conta com uma base importante de mulheres que exercem mandatos no estado, entre prefeitas, vice-prefeitas e vereadoras. São lideranças com experiência política comprovada, mas que precisam estar conectadas de maneira mais permanente ao partido e umas às outras.

A iniciativa que queremos construir parte justamente dessa ideia: criar uma estrutura contínua de formação e articulação para que essas mandatárias também possam atuar como formadoras de novas lideranças, ano após ano, e não sejam procuradas apenas no período eleitoral.

Queremos construir, permanentemente, as condições para que novas lideranças estejam preparadas para disputar eleições e ocupar espaços de decisão.

O PSD Mulher em Minas Gerais organizou no mês passado o programa “Trilhas”, com foco em aspectos como liderança e comunicação. Como avalia a iniciativa e seus resultados?

O “Trilhas” nasceu com um objetivo duplo: capacitar mulheres filiadas em temas práticos da atuação política e, ao mesmo tempo, identificar novas lideranças e possíveis candidaturas.

A programação abordou contabilidade eleitoral, aspectos jurídicos, construção de marca, presença digital e uso de inteligência artificial. Tivemos 56 inscrições e uma média de 20 participantes ativas em cada encontro ao longo do mês. Quase 95% das participantes manifestaram interesse em se aproximar do partido depois do programa.

Esse resultado confirma algo que já intuíamos: quando a capacitação política é feita com escuta e continuidade, e não apenas como um evento pontual, ela também pode ser uma porta de entrada para novos quadros.

Encerramos o programa com um encontro presencial em Belo Horizonte, com painel da vereadora eleita Ana Ruth e participação do vereador Helton Junior. Entendo que avançar na representação feminina depende também do engajamento dos homens do partido nessa construção.

Há dois grandes debates relacionados à participação das mulheres na política: estratégias para ampliar sua presença nos processos políticos e decisórios e iniciativas de combate à violência de gênero. Como você enxerga esses dois temas e de que forma eles devem pautar a atuação do PSD Mulher mineiro?

São urgências de naturezas distintas e, por isso, exigem respostas diferentes, ainda que estejam relacionadas.

Ampliar a participação feminina é, na minha leitura, um problema de estrutura e de continuidade. Precisamos de formação permanente, financiamento efetivo de campanha e presença partidária que não se limite ao período eleitoral.

Já o combate à violência de gênero, incluindo a violência política, exige políticas públicas e mecanismos de proteção jurídica. É uma frente que o partido não substitui, mas que pode e deve apoiar.

Os dados mostram a dimensão do problema. Mulheres foram vítimas de 36% dos casos de violência política registrados no Brasil entre 2020 e 2022, apesar de serem minoria nos espaços de poder. Isso mostra como a sub-representação e a violência política podem se reforçar mutuamente.

Como avalia a interface com o PSD Mulher nacional e que aspectos da atuação do movimento no âmbito nacional podem ser replicados localmente?

Avalio essa interface como estratégica e em construção conjunta. O trabalho de base que o PSD nacional vem desenvolvendo, com aproximação direta e continuada das lideranças municipais, é justamente um modelo que precisamos ampliar em Minas Gerais.

A ideia é descentralizar a atuação da coordenação estadual e criar uma capilaridade real junto aos municípios.

É esse alinhamento entre o que o partido constrói nacionalmente e o que fazemos localmente que pode dar escala e continuidade às iniciativas que estamos desenhando em Minas.

Existe uma imagem recorrente de Minas Gerais como um Estado particularmente machista. Como você observa essa caracterização e de que forma ela influencia a atuação do PSD Mulher?

Os números mostram que estamos diante de um problema nacional, e não de uma característica exclusiva de Minas Gerais. E isso é muito preocupante.

Hoje, as mulheres ocupam cerca de 18% das cadeiras da Câmara dos Deputados, enquanto representam mais da metade do eleitorado brasileiro. Em Minas Gerais, elas são 52,48% do eleitorado, mas ocupam nove das 53 cadeiras destinadas ao estado na Câmara dos Deputados.

O desequilíbrio também aparece fora da política. Segundo o IBGE, as mulheres ocupavam, em 2022, 39,3% dos cargos gerenciais no país. Nos cargos de diretores e gerentes, recebiam, em média, 73,9% do rendimento dos homens. É uma barreira estrutural que se repete em empresas, no serviço público e em diferentes espaços de poder e decisão. Por isso, acredito que a atuação do PSD deve buscar mais estrutura de apoio, financiamento e formação contínua para as candidaturas femininas.

Temos um ciclo eleitoral neste ano. Como você caracteriza a atuação do PSD Mulher mineiro diante desse cenário e quais objetivos podem ser destacados?

A atuação do PSD Mulher-MG se torna preparatória. O “Trilhas” é a expressão mais concreta disso: um programa que capacita filiadas e pré-candidatas antes da corrida eleitoral, e não apenas durante ela.

O objetivo é romper com o padrão histórico de partidos que só se lembram da pauta das mulheres quando chega a hora de formar as chapas. Por isso, a meta não é apenas viabilizar candidaturas pontuais, mas consolidar o Trilhas como um modelo replicável e periódico. Queremos que o PSD Mulher-MG funcione como uma frente permanente de formação política, capaz de preparar novas lideranças independentemente do calendário eleitoral.

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