O agricultor Renildo Francisco Marques, de 51 anos, celebra a elevação do nível da Barragem de Oiticica. “A água já alcança o horizonte. É uma visão linda”, comentou. Inaugurado em março do ano passado, no município de Jucurutu, na região do Seridó potiguar, o segundo maior reservatório hídrico do Rio Grande do Norte ultrapassou, nesta segunda-feira (20), 61% de sua capacidade total, superando os 456 milhões de metros cúbicos.
Natural de uma família de agricultores da zona rural de Jucurutu, Renildo acompanhou de perto o crescimento da barragem nos últimos meses. Ao observar a atual abundância de água, relembra as dificuldades enfrentadas anteriormente para abastecer a casa e irrigar o plantio de feijão. “A barragem chegou no momento certo. A gente precisava muito. O povo daqui sofria demais com a seca. Sem abastecimento regular, minha família usava água salobra de poço ou dependia de caminhão-pipa. Era muito difícil”, recordou.
Segundo o Governo do Estado, o aumento no volume do reservatório está diretamente ligado às chuvas registradas nos últimos meses. Dados recentes apontam crescimento contínuo: em fevereiro, o açude acumulava 110,3 milhões de metros cúbicos (14,86% da capacidade); em março, 168,7 milhões; em abril, houve um salto para 371,7 milhões (50,06%), seguido por 430,7 milhões (56,6%) e, mais recentemente, 456 milhões de metros cúbicos, atingindo 61%.
O secretário estadual de Recursos Hídricos, Paulo Varela, destacou que a barragem tem capacidade total de 742 milhões de metros cúbicos e pode atender até 2 milhões de pessoas. Segundo ele, o volume atual está dentro do esperado. “Tudo segue conforme o cronograma. Não se trata apenas de água armazenada, mas de um recurso que impulsiona o desenvolvimento — gera renda, fortalece a produção de leite e queijo, estimula o turismo e a mineração. O Seridó não ficará mais sem água. Sempre haverá reserva na Barragem de Oiticica, inclusive com o reforço da transposição do Rio São Francisco”, afirmou.
A obra foi concluída após 12 anos e contou com a atuação de 249 trabalhadores. Cerca de 294 mil pessoas, em 22 municípios, são diretamente beneficiadas. O investimento total chegou a R$ 893 milhões, incluindo R$ 161 milhões do Novo PAC. O projeto também contemplou o reassentamento da comunidade de Nova Barra de Santana e a criação de agrovilas em cidades como Jucurutu, Jardim de Piranhas e São Fernando.
De acordo com Procópio Lucena, diretor-presidente do Igarn, a água acumulada no reservatório tem duas principais origens: as chuvas captadas por rios e riachos e o Projeto de Integração do Rio São Francisco (PISF). “Recebemos cerca de 3 metros cúbicos por segundo na divisa do Rio Grande do Norte com a Paraíba. No ano passado, foram 78 milhões de metros cúbicos; neste ano, já recebemos aproximadamente 28 milhões”, explicou.
Sobre o surgimento de vegetação na superfície do lago após as chuvas recentes, Lucena afirmou que o fenômeno já era esperado. “Isso ocorre em todo o Nordeste. São as chamadas ‘baronesas’, plantas aquáticas que se desenvolvem em ambientes ricos em matéria orgânica. As águas trazem esses resíduos, muitas vezes associados ao uso de esterco animal nas margens dos rios, e acabam depositando tudo no reservatório”, concluiu.




